4# BRASIL 23.7.14

     4#1 UM ELEITOR MAIS MADURO
4#2 UM PASTOR COM MILHES DE VOTOS
     4#3 A PENRIA DO DEM
     4#4 RETROCESSO NO STF

4#1 UM ELEITOR MAIS MADURO
Pesquisa ISTO/Sensus mostra que a Copa e o vexame da Seleo Brasileira no tiveram influncia na sucesso presidencial e revela empate entre Dilma e Acio em provvel segundo turno 

A realizao da Copa no Brasil e a vergonhosa eliminao de nossa Seleo no Mundial de futebol no tiveram, at aqui, nenhuma influncia sobre a corrida presidencial.  isso o que indica a pesquisa ISTO/Sensus realizada entre sbado 12 e tera-feira 15. O levantamento efetuado em 136 cidades de 14 Estados mostra que no ltimo ms os principais candidatos  Presidncia da Repblica foram incapazes de sensibilizar os eleitores. As intenes de voto em Dilma Rousseff (PT), Acio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) tiveram pequena variao negativa (leia quadro ao lado), dentro da margem de erro da pesquisa (mais ou menos 2,2%). At agora podemos afirmar que o eleitor brasileiro se coloca de forma bastante madura e parece ter separado muito bem a poltica do futebol, diz Ricardo Guedes Ferreira Pinto, diretor do Sensus. Nem o governo nem a oposio conseguiram faturar politicamente com a Copa.

Para o comando da campanha pela reeleio de Dilma Rousseff, o resultado da pesquisa, embora mantenha a tendncia de queda da presidenta, dever ser visto como positivo. At a tarde da quinta-feira 17, muitos dos lderes petistas acreditavam que o mau humor provocado pelo desempenho bisonho de nossa Seleo se traduziria em uma perda acentuada nas intenes de voto da presidenta e sustentavam que as vaias contra Dilma ouvidas no jogo final da Copa deveriam contaminar as pesquisas eleitorais. A oposio, por sua vez, tambm tende a fazer uma leitura positiva dos nmeros mostrados pela enquete ISTO/Sensus. Na ltima semana, entre os tucanos e no QG da campanha do PSB havia a expectativa de que o fato de o Brasil ter conseguido organizar uma Copa elogiada em todo o mundo e a ausncia de grandes manifestaes durante o campeonato mundial pudessem momentaneamente refletir uma maior aceitao da presidenta. Os nmeros mostram que no foi isso o que ocorreu. Embora no tenha aumentado a inteno de voto em Acio ou Campos, a pesquisa revela que 50,9% dos eleitores reprovam a atuao de Dilma Rousseff  frente do governo federal e 64,9% avaliam sua gesto como regular ou negativa. Esses nmeros so preocupantes para quem busca a reeleio, afirma Guedes. De acordo com o diretor do Sensus,  muito difcil que um governante com menos de 35% de avaliao positiva consiga se reeleger. A pesquisa revela que apenas 32,4% dos eleitores avaliam o governo de Dilma de forma positiva, um nmero 2,2% menor do que o apontado pelo levantamento realizado no incio de junho. A anlise conjunta desses dados permite concluir que, apesar de a Copa ter sido um sucesso, no houve alterao na avaliao que o eleitor faz do governo. As pessoas esto convencidas de que a Copa deu certo por outros fatores que no a ao do governo, diz Guedes.

A pesquisa realizada com dois mil eleitores tambm mostrou que o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva tem boas razes ao insistir em convocar o PT para tentar ganhar a eleio ainda no primeiro turno. Segundo o levantamento ISTO/Sensus, a presidenta Dilma Rousseff e o senador Acio Neves (PSDB-MG), os dois lderes na disputa presidencial, estariam tecnicamente empatados caso disputassem hoje o segundo turno. Nessa situao, de acordo com a pesquisa, Dilma teria 36,3% dos votos e Acio, 36,2%.  a primeira vez que os dois principais candidatos aparecem empatados em um possvel segundo turno. Em abril, a diferena a favor de Dilma era de 6,7% e, em junho, de 5,1%. Tambm com relao ao socialista Eduardo Campos, a diferena a favor da presidenta em um suposto segundo turno vem caindo. Era 14,3% em abril, passou para 10,6% em junho e agora est em 7,8%. Esse  o resultado mais visvel da rejeio que sofre a presidenta e seu partido, diz um dos lderes da campanha de Campos em So Paulo. Quando os programas de tev comearem, a tendncia  a de que a presidenta tambm comece a cair j no primeiro turno. Hoje, segundo a pesquisa ISTO/Sensus, 42,4% dos eleitores rejeitam a possibilidade de votar na presidenta.  natural que o candidato mais conhecido tenha tambm mais rejeio, mas no conheo casos de candidaturas que tenham obtido sucesso com mais de 40% de rejeio, afirma Guedes. Se a eleio fosse hoje, segundo a pesquisa, haveria segundo turno. Dilma teria 31,6% dos votos e seus adversrios somariam 32,4%.

ANLISE - Para Ricardo Guedes, do Sensus, rejeio  presidenta  muito alta

Registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o nmero BR  00214/2014, o levantamento ISTO/Sensus constata que a definio dos vices dos trs principais candidatos no surtiu efeito eleitoral, pelo menos at agora. O pior cenrio  para Eduardo Campos, que apostou na transferncia dos votos de Marina Silva, candidata a vice. A enquete mostra que os eleitores j sabem que Marina no ser candidata a presidente, isso porque ela no  mais citada quando a pesquisa aborda a inteno de voto espontneo (leia quadro na pg. 38). Os votos de Marina, no entanto, no se transferiram para o governador pernambucano.  provvel que daqui para a frente, com o fim da Copa, as pessoas comecem a olhar mais atentamente para os candidatos e os vices passem a ter maior importncia, afirma Guedes. As prximas pesquisas podero medir melhor esse fator. O tucano Acio Neves acredita que a chapa com o senador paulista Aloysio Nunes Ferreira possa ajudar a consolidar e ampliar uma vitria no Sudeste, o maior colgio eleitoral do Pas. A pesquisa mostra que no Sul Acio j ultrapassou Dilma (27,9% contra 20,9%) e que no Sudeste ele est na frente (24,8% contra 24,4%). No PSDB, no entanto, o entendimento  que essas diferenas precisam ser ampliadas. No caso da presidenta Dilma Rousseff, mais do que trazer votos, o papel do vice Michel Temer  o de procurar manter unido o PMDB. Misso nada fcil em um partido que se caracteriza como uma federao de interesses regionais nem sempre convergentes. Na quinta-feira 17, por exemplo, o senador Romero Juc (PMDB-RR) disse a aliados que ir comandar a campanha do tucano Acio Neves em seu Estado. Mesma postura j adotada pelo senador Euncio Oliveira, no Cear.


4#2 UM PASTOR COM MILHES DE VOTOS
Inicialmente desacreditado, o candidato  Presidncia Pastor Everaldo (PSC) atrai o eleitorado conservador, alcana quase 3% nas pesquisas e preocupa o Planalto
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)

Conservador empedernido, o desconhecido Pastor Everaldo (PSC) decidiu, ainda em 2011, que o primeiro cargo eletivo que disputaria seria o de presidente da Repblica. A partir de ento, comeou a preparar terreno para a candidatura. A obsesso do pastor pelas eleies de 2014 provocava risadas at mesmo nos assessores mais prximos. Agora, em quarto lugar com 2,6% das intenes de voto (cerca de trs milhes de eleitores) em todo Pas e empatado com o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB) em alguns Estados, Everaldo passou a meter medo no Palcio do Planalto. No que o candidato do PSC possa ameaar a liderana da presidenta Dilma Rousseff, mas ele pode ajudar a levar a eleio para o segundo turno  tudo o que o PT mais teme neste momento. E o pastor da Assembleia de Deus, a maior denominao evanglica do Pas, garante que no h qualquer chance de abrir mo da candidatura. No tem negociao. Vou at o final, assegura. A avaliao de especialistas e cientistas polticos  de que Everaldo tem potencial de crescimento ao ampliar o leque do eleitorado evanglico para a direita conservadora. Somos um partido de centro-direita conservador, define Everaldo.

MUITO ALM DO VOTO EVANGLICO - Em quarto lugar nas pesquisas, Everaldo contabiliza trs milhes de votos e ajuda a levar a eleio para o segundo turno

Os eixos principais do programa de governo do candidato do PSC ao Planalto so a defesa da famlia e o fortalecimento das Foras Armadas. Expresses como recriao dos laos afetivos e morais da sociedade e exerccio da liberdade que impe custos para terceiros soam muito bem para a parcela conservadora do eleitorado. Everaldo defende ainda uma economia livre a partir do empreendedorismo individual, com mnima interveno estatal, a modernizao da infraestrutura e da mobilidade urbana com parcerias pblico-privadas e plena concorrncia. No programa de governo tambm esto listadas a reforma na educao e na sade com descentralizao da gesto, a preservao do valor real das aposentadorias e uma reforma poltica que reduza gastos de campanha. O pastor prega ainda o fim do voto obrigatrio. Coube ao marqueteiro argentino Jorge Gerez a tarefa de polir a imagem do lder evanglico, transformando-o numa alternativa para os eleitores identificados com plataformas de direita. A equipe de marketing do pastor tambm tem apostado nos eleitores que votaram na evanglica Marina Silva, em 2010, mas que agora se revelam insatisfeitos com a aliana da ex-senadora com o socialista Eduardo Campos. A ideia  atrair as lideranas religiosas para a campanha e transform-las em verdadeiros cabos eleitorais pelo Pas.

O que limita o crescimento do pastor  a falta de estrutura partidria e verbas. Se comparada com os concorrentes, a campanha de Everaldo ser modesta, com teto de R$ 50 milhes. Hoje, para economizar, ele percorre o Pas acompanhado de apenas um assessor. A estreita ligao de Everaldo com o lder do PMDB, deputado Eduardo Cunha (RJ), no entanto, pode ajud-lo a conseguir recursos. Ele e o deputado do PMDB so scios na empresa Folha Crist. Quando o PSC ainda no tinha sala para abrigar sua liderana na Cmara, Cunha forneceu uma parte de seu gabinete para a sigla despachar. O peemedebista no teria motivos para se recusar a contribuir agora, segundo aliados. Na retaguarda poltica, Everaldo conta com o apoio do senador Magno Malta (PR-ES), que ficou contrariado com a adeso do seu partido, o PR, ao governo, depois que Dilma aceitou trocar o comando do Ministrio dos Transportes.  Vou percorrer o Brasil pela candidatura de Everaldo, promete Magno.


4#3 A PENRIA DO DEM
Com problemas de arrecadao, o partido se prepara para a campanha mais austera de sua histria. Por um respiro financeiro, tem topado at acordo com o governo
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)

Na tarde da tera-feira 15, os parlamentares voltaram ao Congresso depois de uma longa folga embalada pelos jogos da Copa do Mundo. A pauta do dia era a votao da Lei de Diretrizes Oramentrias (LDO), convenientemente boicotada pela base aliada, que usou o adiamento para negociar com o governo mais verbas para suas bases eleitorais. Para a surpresa dos aliados, o DEM, presidido pelo fervoroso senador oposicionista Jos Agripino Maia, mandou emissrios para a mesa de negociao com o governo. Em conversa a portas fechadas, os lderes do partido de oposio celebraram um acordo com o ministro das Relaes Institucionais, Ricardo Berzoini, bom para ambas as partes: o governo se comprometeu a liberar emendas individuais dos parlamentares do DEM em troca do apoio da sigla  votao da LDO e do abrandamento do discurso em relao  CPI da Petrobras, que aos poucos vai morrendo graas  falta de tempo e de interesse dos congressistas envolvidos no debate eleitoral.

VALE TUDO - O DEM, do empedernido oposicionista Jos Agripino, negociou liberao de emendas com o governo em troca de apoio  LDO

O que explica a inslita negociao  o estado de penria do partido. Os parlamentares que concorrem  reeleio reclamam da grande dificuldade para captar doaes e da escassez de recursos do fundo partidrio. Em 2002, o partido ficava com 19,6%  R$ 16,3 milhes ou quase um quinto  de todo montante distribudo a 29 legendas. Agora, o DEM tem direito a menos de 3% desse total. Para piorar, o tesoureiro do DEM, Romero Azevedo, no tem sido bem-sucedido nas reunies com os empresrios. Setores como o agronegcio, bancos e empreiteiras, que antes financiavam o partido, acompanharam grandes nomes que abandonaram a sigla em 2011, rumo ao PSD. Trs anos depois, o DEM se prepara para a campanha mais austera de sua histria e o PSD ganhou o ttulo de partido dos ricos. Saulo Queiroz  secretrio-geral do PSD e ex-tesoureiro do PFL  lembra os tempos ureos da legenda. De acordo com Queiroz, a arrecadao  proporcional  perspectiva de poder das legendas. O partido era prspero quando eu era o tesoureiro. Eu sou um cara bom para fazer dinheiro, provoca.

Por isso a negociao com o governo tornou-se to conveniente. As emendas parlamentares no deixam de ser um importante ativo em ano eleitoral. Com os recursos das emendas, o deputado pode agradar suas bases por meio de obras e eventos. Essas aes normalmente so revertidas em votos na urna eletrnica durante a eleio. No deixa de ser um alento para quem est com um problema crnico de caixa. Nem que a soluo seja mandar s favas as convices ideolgicas.


4#4 RETROCESSO NO STF
Decises do tribunal abrem precedentes que podem favorecer polticos alvos de processos e prejudicar a transparncia dos julgamentos
Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)

Recentes movimentos discretos e decises monocrticas tomadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) mostram que as prises dos mensaleiros no asseguraram um precedente no combate  impunidade. Pelo contrrio. No dia 4 de junho, a ministra Carmem Lcia decidiu, sozinha, que um deputado federal licenciado do cargo deve ter seu processo enviado  Justia de primeira instncia, mesmo que no tenha oficialmente renunciado. A ministra julgava a ao penal 605 contra o deputado federal Edson Girotto (PMDB-MS), quando declinou sua competncia para julgar o processo que o acusa de armar flagrantes de compra de votos contra adversrios.

A deciso da ministra vem sendo criticada nos bastidores e chamou a ateno do Procurador-Geral da Repblica, Rodrigo Janot, que encaminhou  ministra um pedido de reconsiderao em 12 de junho. No pedido, Janot argumentou que a licena do cargo tem carter provisrio e nunca foi considerado motivo para que o STF declinasse de sua competncia. Ministros ouvidos por ISTO lembram que, se a deciso de Carmen Lcia virar regra, e hoje esse risco  real, rus com foro privilegiado conseguiro retardar o andamento de processos pedindo licenas do mandato e desistindo delas em seguida. A ao provocaria idas e vindas a tribunais de primeira instncia.

No bastasse a nova interpretao dada pela ministra, o Supremo tomou recentemente outra deciso comemorada por polticos denunciados e respectivos advogados de defesa. O STF decidiu que aes contra detentores de foro especial no mais sero julgadas pelo plenrio, e sim pelas Turmas, grupos de apenas cinco ministros. Na prtica, as sesses que vo julgar polticos deixam de ser televisionadas, o que permitir que deputados e senadores sejam condenados ou inocentados em processos com apenas trs votos. A medida foi aprovada em sesso administrativa do STF. O objetivo  desafogar o plenrio. Eu, por exemplo, tenho cerca de 140 processos na fila, afirmou o presidente da comisso de reforma do regimento do STF, ministro Marco Aurlio Mello. A medida pode dar celeridade ao trmite de casos engavetados no STF, mas trata-se, sem dvida, de um retrocesso no combate  impunidade.

